03/04/2023

Inventividade e Inovação na Construção Civil

Universo OEC
Ponte Vasco da Gama - Obra OEC

Engenheiros são reconhecidos pela capacidade de encontrar soluções criativas. Não é à toa que o nome da profissão é parente de primeiro grau da engenhosidade, atributo daqueles dotados do espírito da invenção, além de grande destreza e habilidade. O ser engenhoso é aquele que nunca se deixa surpreender. Ele sempre dá um jeito.

Contrariamente, apesar das inúmeras invenções diárias em praticamente todos os canteiros de obras no mundo inteiro, a indústria da construção é considerada atrasada quando se fala em inovação. Basta comparar o volume de investimentos em Fintechs, Foodtechs e Healthtechs – aquelas startups ligadas às finanças, aos alimentos e à saúde – com o total investido em Construtechs. Os números são desproporcionais.

Quais seriam os motivos para tamanha dissonância? Afinal, engenheiros de formação compõem parte significativa do quadro de fundadores de startups. Então, vou arriscar aqui algumas observações que podem contribuir para desvendar barreiras e apontar caminhos para soluções.

De imediato, é preciso distinguir criatividade de inovação. Resumidamente, inovação é a criatividade aplicada, onde uma boa ideia é transformada em um novo produto ou processo, ou um novo modelo de negócio. Trata-se da implementação e operacionalização – desde que viável, sustentável e lucrativa – de uma nova solução que entrega valor aos clientes.

Inovação tem a ver com registro, organização, sistematização, estruturação, desenvolvimento, com testes, e por aí vai. Já a pura criatividade não resulta em crescimento do negócio, apesar de agregar valor circunstancial e momentâneo. Se não for sistematizada, ela tampouco será replicada. A solução criativa nasce, cumpre o seu papel – às vezes com brilhantismo – para em seguida ser esquecida.

Neste contexto me ocorrem três características da indústria da construção civil que são avessas à inovação, ao menos nos termos aqui apresentados. A primeira é que cada obra é única. Dificilmente se repete de forma idêntica uma vez que as condições de terreno, topografia, clima, acesso a recursos, capacidade da equipe e vários outros fatores fazem de cada edificação um desafio praticamente inédito. Esta característica favorece a reinvenção daquilo que já foi feito em outro lugar, em algum momento do passado.

A segunda característica é que, em geral, as margens orçamentárias e de tempo são muito estreitas nesta indústria. Essa realidade cria forte pressão sobre a gestão da obra. Sabemos que pessoas sob pressão tendem a minimizar a importância da reflexão e da dedicação de tempo para a pesquisa e o subsequente reuso de melhores práticas já bem testadas.

Por último, uma terceira característica que vem da cultura dos canteiros. Convenhamos que eles não sejam os ambientes mais amigáveis ao registro e à sistematização de práticas diárias. Ao contrário, se alguém quiser torturar essas equipes, que lhes exija relatos detalhados do que foi executado ao final do turno, enquanto as ideias ainda estejam frescas. Essa turma iria mesmo enlouquecer caso lhes fosse imposta uma nova rotina diária, a sistematização das suas ações inventivas.

A falta de registros bem-feitos não apenas concorre para que erros sejam repetidos. Muito embora falhas sejam combatidos com significativo sucesso pela transmissão oral e pela experiência dos líderes nesta indústria. O que pega mesmo é a ausência de sistemas que facilitem o hábito da sistematização, do registro e do acesso ao acervo do conhecimento acumulado. O resultado desse ciclo negativo é a perda de um imenso capital de criatividade que poderia desembocar em inovações altamente rentáveis. Adicionalmente, a dificuldade em acessar os bancos de conhecimento compete para que aprendizados já adquiridos não sejam reutilizados em novos desafios.

Malgrado todas essas dificuldades, várias construtoras têm percebido valor em atrair startups com soluções simples e valiosas para as suas obras, tanto por conta da redução de custos, como pela transformação positiva que elas promovem nos processos e no consumo de recursos materiais.

Canteiros são também excelentes campos de prova para iniciativas inovadoras que precisam ser testadas. Neste ponto, um mundo de oportunidades se abre para os programas de inovação das construtoras, seja por meio de parcerias com Venture Builders, empresas especializadas em criação e desenvolvimento de startups, seja por alianças com fundos de Venture Capital que sejam sensíveis ao imenso potencial de crescimento da inovação na construção civil.

Claudio Cardoso | OEC IN